quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bobo


Uma mecha desprendeu-se detrás da orelha da moça. O rapaz tímido apressou-se em recolocá-la no lugar, antes mesmo que ela notasse os fios dispersos a enroscar em seus lábios.

Ele já a pesquisara por semanas, sabia interpretar suas feições e era capaz de enxergar a ruga que se formava em sua testa quando a notava preocupada. Ele não era do tipo comum, mas era exatamente isso que a atraia. O mistério, o conteúdo não deixado a mostra na vitrine.
Não gostava de padrões, interessava-se por aquilo que não era óbvio e adorava o jeito acanhado com que a cortejava, ruborizado, sem saber ao certo onde colocar as mãos quando em sua presença.

Era bobo ao convidá-la pra sair, ao entregar-lhe os lírios mais desabrochados num dia qualquer, ao gaguejar quando ficava nervoso, ao achá-la linda mesmo usando uma Hering e um jeans surrado, ao deixar bilhetes com os recados mais doces que já lera, ao dançar todo descompassado e ao tentar demonstrar todo aquele desejo de estar o máximo de tempo possível ao lado dela.

A moça foi incapaz de manter-se indiferente aquela novidade que a capturara. Sentiu-se prestes a encaixar-se na parte de si que andava desgarrada. Não pode conter-se, mesmo que a decisão implicasse em ferir seu instinto auto-protetor, prometido repetidas vezes não ser quebrado.

A forma com que sua cabeça encontrava o ombro do rapaz, seus dedos finos e delicados entrelaçando-se aos dele, sua cintura sendo contornada pelo pouso preciso das mãos do moço e suas idéias e convicções fundindo-se as dele a fez perceber que o encaixe era preciso, tal como peças de quebra- cabeça, únicas, se encaixando com tamanha precisão.

Ela sentiu paz e deu-se conta de que ele não era qualquer rapaz .

Era bobo.



E era dessa bobeira que ela tanto precisava.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Inconformismo não é relativo

É cada vez maior meu inconformismo com este mundo pós-moderno. Por mais que eu esteja vivendo a fase da juventude, em que aliar a liberdade e o vigor da idade traz consigo as melhores experiências, não consigo me encaixar na marola que leva o cardume. É como se eu fosse a própria maré, chocando diariamente suas ondas nas rochas com a esperança de perfurá-las.

No tempo da avó Amélia os sexos eram dois, só era casado se tivesse papel passado, mentira era mentira, a mulher era feminina, sim era sim e não era não.Embora eu não seja simpatizante de absolutos, sinto uma falta absurda deles no meu cotidiano.
Principalmente do certo e do errado.

É fato que o equilíbrio nunca se deu com o extremo, mas viver sem parâmetros também não permite fazer escolhas sensatas.
Quando o relativo se torna padrão, tê-lo como base te torna uma pessoa corruptível, vacilante e manipulável.

A geração cinza (nem preto, nem branco) se expressa nas suas diferentes idades.
Crianças querendo ser sensuais, adolescentes hermafroditas, do tipo que quando se olha é impossível definir o sexo 'daquilo' e jovens sem referenciais, perdidos no meio de tantas incertezas.

Defender a heterossexualidade, acreditar no casamento, não fazer parte da vulgaridade feminina, ser o único NÃO entre as afirmativas pode fazer-me a mais tapada e retrógrada.
Que seja...de qualquer forma, continuo inconformada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Corre


O sol mal acordou e o despertador já dispara como quem também está atrasado. A correria começa logo cedo.
A mochila tornou-se uma casa, onde é possível encontrar tudo o que é necessário para passar um dia morando dentro dela. Agasalho, óculos escuros, protetor solar, ipod, bilhete único e um guarda chuva reforçado é o kit de sobrevivência de qualquer um que se arrisque a viver na metrópole.

São Paulo te encolhe e faz você acelerar o passo, como os atletas fazem naquelas corridas de marcha atlética (engraçadíssima, por sinal).
Não há tempo de olhar para os lados e muito menos parar para dar uma informação, pois são esses preciosos cinco minutos que farão você perder o ônibus para chegar ao trabalho.

Se pudesse resumí-la em uma palavra seria pressa. São Paulo não pára pra te ouvir, para conhecer o seu vizinho, para deixá-lo caminhar tranquilamente sem precisar agarrar sua bolsa a frente do corpo ou para oferecer uma ajuda. Ela se movimenta com o seu cigarro entre os dedos e de duas uma: ou você acompanha o fluxo ou é pisoteado por ele.

Como uma turista que leva uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço e usa um chapéu cor cáqui, logo sou reconhecida pelo paulistano. Quem vive aqui reconhece de cara aquele que não pertence a cidade. Seja pela disposição para conversar, seja pelos costumes interioranos.
Se não fosse provado que a Terra gira em torno do Sol, eu não duvidaria que o paulistano acreditasse que todo o sistema solar girasse em torno de SP. Aquele que não é daqui, ou é caipira ou é estrangeiro.
Ledo engano!
Há vida fora de São Paulo, uma vida simples, mas cheia de significado.
Talvez um refúgio para aqueles que não sabem o que é ouvir o silêncio e enxergar a Lua, invisível a olhos cobertos por poluição.

Embora a capital sugue as suas energias e te transforme em um ser produtivo, criado exclusivamente para o trabalho, ela também estende os seus braços, com uma amplitude ímpar. Te acolhe, te abriga e te ensina a andar no seu ritmo.

Não tropece, porque atrás de você sempre haverá uma multidão com muita pressa.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Saudade


Ela chega em um dia qualquer, em um momento qualquer e te toma de forma inesperada.
Sacode-te e deixa espalhar lembranças como o vento faz com as folhas das copas antes da tempestade. Toma conta dos seus sentidos e vasculha sua memória resgatando cheiros, perfumes, imagens, vozes e sensações há muito tempo esquecidas.
O aroma do café, o perfume de alguém, um rosto conhecido, um lugar, uma gargalhada engraçada, uma expressão facial, uma música que te transporta, uma foto, um abraço, uma voz.
É magnífico o modo como as conexões neuronais se inter-relacionam, de forma a levá-lo a uma sensação já vivida em fração de segundos.
Revive-se dentro deste instante, momentos eternizados na memória.

Incontáveis são os meus momentos e pra cada um deles há uma lágrima derramada, seja ela de tristeza, seja de alegria.
Sinto falta de pessoas, de lugares, de risadas e principalmente de demonstrações de afeto.
Falta de relacionamentos mais sinceros, mais desinteressados e mais humanos.
Falta de conselhos sábios, de uma mão acolhedora, de um olhar compadecido e desesperadamente de uma sociedade menos umbilical.
Também sinto saudade daquele que não conheço, daquele que não sei quando nos encontraremos, mas que há muito tempo...já me faz falta.

Sinto falta da minha melhor parte que se perdeu, aquela que despertava espontaneamente, que não tinha vergonha, que mostrava língua para o medo. Aquela parte que ria de si mesma, que se emocionava com filmes bobos, que era desprendida de olhares acusadores, que se auto-regenerava após a frustração e renascia com mais força.

Mas viver só de saudade também não faz bem, porque ela te consome e vai minando seu desejo por outras novas sensações, aquelas que você ainda não viveu.

Talvez a nostalgia seja mesmo um caminho largo, mas quanto mais largo, mais gente posso levar comigo, e assim, mato um pouquinho a minha saudade.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ano Novo?

Gruta da Lagoa Azul - Bonito/MS
Férias 2010

Tal qual uma criança recém-nascida, 2010 também precisa de um nome e sobrenome. E se fosse exigido certidão de nascimento, registraria como Ano Inicial do Desafio.
Começou pipocando de formaturas, com mais de seis mil quilômetros rodados por esse Brasil e uma carga enorme de ansiedade. Pra você talvez seja apenas um ano a mais no calendário, sem novidades, com o mesmo emprego, mesma forma de organizar os armários, mesma disposição dos móveis da sala, mesmo penteado e com as mesmas promessas de todo início de ano que se perdem depois dos últimos fogos de artifício...mas para mim ele será um furacão.

Faculdade concluída, formatura chegando e uma responsabilidade intrínseca de começar a viver da forma mais digna que existe: comendo do próprio trabalho.
Não vou fantasiar aqui que 2010 será o meu ano, ou o ano da minha vida, nem nada disso, porque a mudança acontece a partir de uma decisão, independente se o ano começou ou se está pela metade. Mas a idéia de dividir o tempo em anos é, de uma certa forma, bem inteligente. Traz um poder de renovação, que na verdade não existe, mas é bom acreditar que ela pode acontecer.

A palavra furacão traz ligado a si uma idéia de destruição, e é bem isso.
Ele passa voando e é impossível não perceber que esteve ali. Mas depois da destruição sempre vem a reconstrução.
2010 será assim. Passará voando e será inadmissível não haver mudanças.
E se elas não existirem, é porque não houve vontade de reconstruir-se.
Corra. Ainda lhe restam 7.800 horas...
E já que esse ano será o ano da sustentabilidade, enfie num saco plástico biodegradável o lixo de 2009 e recicle o que puder em 2010.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Crônica


♥ ♥ ♥

Não foi por acaso que ele estava ali, muito menos por conveniência. Foi apenas pelo fato de estarem inseridos no mesmo ambiente e dividirem a mesma realidade. Talvez se ela estivesse em outro estado, encontraria outra pessoa que despertaria nela os mesmos sentimentos.
Por este motivo ela não acreditava que ele era o único por quem se interessaria, mas sabia que naquele momento era ele quem perturbava os seus pensamentos.

Sempre muito pé no chão (enterrados, na verdade) fingiu não notar o interesse do rapaz e nem criar qualquer expectativa. Ele entretanto, a observara e podia descrever, com detalhes minuciosos, toda a movimentação da moça, desde os dez minutos em que dividiram o mesmo espaço.

Como já se conheciam de um aniversário de um amigo em comum, começaram a conversar sobre assuntos triviais: tempo, faculdade, amigos em comum, família. A conversa se estendia e se aprofundava, até que o rapaz perguntou sobre os relacionamentos amorosos da moça.
Ela desconversou, ruborizou as bochechas e saiu pela tangente.
E ele insistia. Com persistência, colheu informações suficientes para começar de novo e instigar novas respostas.

Depois de experiências frustradas, ambos deram-se oportunidades.
Oportunidade de desfrutar de um sentimento que os tornaram bobos, infantis, idiotas, mas únicos. A tal da Paixão.
Agora eles estão com outros objetivos: tranformá-la em Amor.
O mais bobo de todos, se assim for possível.

♥ ♥ ♥

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cobrança

É incrível como as pessoas têm o dom de concentrar-se na vida alheia.
Não contentes, precisam alimentar-se do reflexo do outro, já que não conseguem ser o próprio espelho.

Num desses fins de tarde, no meu momento filosófico, sentei na sacada olhando pro nada e pensei: “Isso não vai acabar nunca?” E eu mesma concluí : “– Não! Pelo menos enquanto existir pessoas!” Isso. Mas isso o que?
A cobrança.
Numa linha cronológica e num ciclo vicioso ela sempre existirá, quer ver só?

Logo na idade pré-escolar seus pais lhe cobram um desempenho escolar acima do vermelho. Então, empenha-se todo o esforço e colecionam-se notas azuis.

Caminhando no tempo, chega a fase do vestibular, e antes mesmo de você decidir uma profissão já chove perguntas do tipo: já decidiu que carreira seguirá?
Escolhida a profissão, graduada e com o diploma na mão, as interrogações voltam: E agora que você se formou, vai trabalhar onde?

Concomitantemente ao lado profissional, o namoro vai de vento em polpa...até surgir :
“-Noooossa, faz tempo que vocês estão juntos né? Pretendem se casar quando?”
Casada, alguém solta: “- Já tá na hora de ter um bebê, está nos planos do casal?”
Comemorado os 3 anos do(a) garoto(a), aparece a pergunta: “- Não vão ter outro? Ele precisa de um amiguinho.”
Os filhos crescem e são colocados na escola.
O trabalho continua e as perguntas também: Quando você se aposenta?
Aposentado(a), filhos criados e vida estável, só falta lhe perguntar:
Quando você vai morrer?

É claro que existem pessoas que se preocupam com a sua felicidade e querem se sentir participantes dela. Ótimo.
Mas...será que ser feliz é uma obrigação?
E se ela, a tal felicidade, não for alcançada? Serei cobrada por isso?

Não me preocupo em ter respostas pra todas as perguntas, mas quero poder sentar na sacada daqui alguns anos e sentir a felicidade pulsando dentro de mim, sem cobrar pra estar ali, silenciosa, viva e principalmente sem perguntas.