quinta-feira, 19 de maio de 2011

Artesanato

Faz tanto tempo que não dava as caras por aqui, que resolvi aparecer rapidinho até o próximo texto ficar pronto.

Essa é pras meninas!
Aí embaixo está a foto da minha última criação: uma caixinha porta-tudo.
Estou trabalhando em outra, mas ainda não está terminada.
Espero que gostem.

[clique sobre a imagem para ampliá-la]

Descrição: caixa em MDF; tinta acrílica rosa, decoupage na tampa em guardanapo floral, barrado adesivado, xadrez em tecido, acabamento com passamanaria e fita de cetim rosa. Toda envernizada externa e internamente.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Com você.

Três horas de viagem.

Mais uma vez estava eu no meu assento, olhando através do vidro da janela e deixando meus pensamentos soltos, com uma preguiça de segurá-los em minha mente.Vagavam. Como guardas em horário de ronda, sondavam repetidas vezes caminhos desertos, quase sem movimento, buscando encontrá-lo. Era rotina. Estava acostumada com a independência e não ter te conhecido até aquele momento era sentir que parte de mim ainda tinha muito do que se alegrar.

Sessões de cinema, compras, saídas noturnas, decisões, escolhas, sempre foram individualistas até você chegar e fazer eu perceber que a matemática pode errar e que divisão também resulta em soma.

Agora que te encontrei, quero descobrir-te.

Descobrir se és dia ou noite, praia ou campo. Se prefere café ou chá, se sua testa fica enrugada quando está preocupado, se gosta de MPB ou sertanejo. Descobrir se você chora e porque choras, saber o que te deixa constrangido e o que te faz sentir confortável. Se tem medo e do que os têm, o que te causa pânico, se cozinha bem, se um filme é capaz de emocioná-lo, se és manhoso quando fica doente ou se finge ser inabalável.

Quero descobrir uma parte de você que só aflora quando em minha presença, sentir saudades ao ouvir sua música preferida, ouvir seu coração em solavanco quando te beijo e sua palpitação quando encosto meu ouvido ao seu peito. Quero poder acordá-lo com um telefonema no meio da noite, só pra poder dizer que sinto sua falta. Saber qual é sua reação quando perde e como comemora suas vitórias. Quero saber o nome do seu perfume e qual a roupa que não tira do corpo.

Quero poder correr e depois pular em você entrelaçando minhas pernas a sua cintura, assim como meu coração está entrelaçado ao seu, sem nós, atados de forma precisa.

Depois de alguns anos, cá estou de novo, sentada na mesma poltrona. Mas desta vez, de todas as minhas vontades, o que mais quero é chegar, sair dessa poltrona e matar a saudade da minha metade que ficou em você, desde a última vez que te vi.


Aquela vez, quando você sorriu e acenou pra mim, no dia em que descobri o que é estar apaixonada.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Tesouro


Não raro abro minha caixa de entrada e me deparo com e-mails sobre o valor da amizade.
As fotos ilustram amigos reunidos, se divertindo, legendadas de palavras de afeto. Até aí, ótimo. Comovente.
Com um click, mando tudo pra lixeira. De nada vale um texto poético se na maioria dos relacionamentos não há profundidade.

Confesso que o tempo e as corunhadas recebidas me deixaram, de certa forma, fechada a novas amizades, mas na realidade o que a ostra mais deseja é abrir-se e sair da superfície.
Rodas de conversas sobre homens, mulheres, futebol, moda, dinheiro, são comuns entre amigos, mas se colocássemos todos os nossos 'amigos' enfileirados apoiado em um muro, qual realmente apontaríamos como amigo de fato? Com qual deles eu poderia ser transparente e mostrar meu lado mais miserável e covarde? Qual deles seria o amigo que choraria a mesma lágrima que a minha?
Um, dois, três no máximo, das 1009048349830 pessoas que já passaram pela minha vida.


Precisa-se, ou melhor, preciso de amigos pra chorar de rir, ou simplesmente pra chorar. Daquele tipo em extinção, que não precisa de muitos motivos pra se estar junto, mas quando o faz, é capaz de trazer a tona a minha melhor parte, faces das quais só sou capaz de recordar-me quando em sua presença.

Necessito do amigo não-oportuno, daquele que empresta o ombro, a casa, a família e até o $ se for preciso. Do amigo perto, presente, ouvinte.


Se você já tem os seus tesouros, conserve-os como raridade.

Se não os tem, abra-se. A ostra pode produzir pérolas preciosas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bobo


Uma mecha desprendeu-se detrás da orelha da moça. O rapaz tímido apressou-se em recolocá-la no lugar, antes mesmo que ela notasse os fios dispersos a enroscar em seus lábios.

Ele já a pesquisara por semanas, sabia interpretar suas feições e era capaz de enxergar a ruga que se formava em sua testa quando a notava preocupada. Ele não era do tipo comum, mas era exatamente isso que a atraia. O mistério, o conteúdo não deixado a mostra na vitrine.
Não gostava de padrões, interessava-se por aquilo que não era óbvio e adorava o jeito acanhado com que a cortejava, ruborizado, sem saber ao certo onde colocar as mãos quando em sua presença.

Era bobo ao convidá-la pra sair, ao entregar-lhe os lírios mais desabrochados num dia qualquer, ao gaguejar quando ficava nervoso, ao achá-la linda mesmo usando uma Hering e um jeans surrado, ao deixar bilhetes com os recados mais doces que já lera, ao dançar todo descompassado e ao tentar demonstrar todo aquele desejo de estar o máximo de tempo possível ao lado dela.

A moça foi incapaz de manter-se indiferente aquela novidade que a capturara. Sentiu-se prestes a encaixar-se na parte de si que andava desgarrada. Não pode conter-se, mesmo que a decisão implicasse em ferir seu instinto auto-protetor, prometido repetidas vezes não ser quebrado.

A forma com que sua cabeça encontrava o ombro do rapaz, seus dedos finos e delicados entrelaçando-se aos dele, sua cintura sendo contornada pelo pouso preciso das mãos do moço e suas idéias e convicções fundindo-se as dele a fez perceber que o encaixe era preciso, tal como peças de quebra- cabeça, únicas, se encaixando com tamanha precisão.

Ela sentiu paz e deu-se conta de que ele não era qualquer rapaz .

Era bobo.



E era dessa bobeira que ela tanto precisava.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Inconformismo não é relativo

É cada vez maior meu inconformismo com este mundo pós-moderno. Por mais que eu esteja vivendo a fase da juventude, em que aliar a liberdade e o vigor da idade traz consigo as melhores experiências, não consigo me encaixar na marola que leva o cardume. É como se eu fosse a própria maré, chocando diariamente suas ondas nas rochas com a esperança de perfurá-las.

No tempo da avó Amélia os sexos eram dois, só era casado se tivesse papel passado, mentira era mentira, a mulher era feminina, sim era sim e não era não.Embora eu não seja simpatizante de absolutos, sinto uma falta absurda deles no meu cotidiano.
Principalmente do certo e do errado.

É fato que o equilíbrio nunca se deu com o extremo, mas viver sem parâmetros também não permite fazer escolhas sensatas.
Quando o relativo se torna padrão, tê-lo como base te torna uma pessoa corruptível, vacilante e manipulável.

A geração cinza (nem preto, nem branco) se expressa nas suas diferentes idades.
Crianças querendo ser sensuais, adolescentes hermafroditas, do tipo que quando se olha é impossível definir o sexo 'daquilo' e jovens sem referenciais, perdidos no meio de tantas incertezas.

Defender a heterossexualidade, acreditar no casamento, não fazer parte da vulgaridade feminina, ser o único NÃO entre as afirmativas pode fazer-me a mais tapada e retrógrada.
Que seja...de qualquer forma, continuo inconformada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Corre


O sol mal acordou e o despertador já dispara como quem também está atrasado. A correria começa logo cedo.
A mochila tornou-se uma casa, onde é possível encontrar tudo o que é necessário para passar um dia morando dentro dela. Agasalho, óculos escuros, protetor solar, ipod, bilhete único e um guarda chuva reforçado é o kit de sobrevivência de qualquer um que se arrisque a viver na metrópole.

São Paulo te encolhe e faz você acelerar o passo, como os atletas fazem naquelas corridas de marcha atlética (engraçadíssima, por sinal).
Não há tempo de olhar para os lados e muito menos parar para dar uma informação, pois são esses preciosos cinco minutos que farão você perder o ônibus para chegar ao trabalho.

Se pudesse resumí-la em uma palavra seria pressa. São Paulo não pára pra te ouvir, para conhecer o seu vizinho, para deixá-lo caminhar tranquilamente sem precisar agarrar sua bolsa a frente do corpo ou para oferecer uma ajuda. Ela se movimenta com o seu cigarro entre os dedos e de duas uma: ou você acompanha o fluxo ou é pisoteado por ele.

Como uma turista que leva uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço e usa um chapéu cor cáqui, logo sou reconhecida pelo paulistano. Quem vive aqui reconhece de cara aquele que não pertence a cidade. Seja pela disposição para conversar, seja pelos costumes interioranos.
Se não fosse provado que a Terra gira em torno do Sol, eu não duvidaria que o paulistano acreditasse que todo o sistema solar girasse em torno de SP. Aquele que não é daqui, ou é caipira ou é estrangeiro.
Ledo engano!
Há vida fora de São Paulo, uma vida simples, mas cheia de significado.
Talvez um refúgio para aqueles que não sabem o que é ouvir o silêncio e enxergar a Lua, invisível a olhos cobertos por poluição.

Embora a capital sugue as suas energias e te transforme em um ser produtivo, criado exclusivamente para o trabalho, ela também estende os seus braços, com uma amplitude ímpar. Te acolhe, te abriga e te ensina a andar no seu ritmo.

Não tropece, porque atrás de você sempre haverá uma multidão com muita pressa.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Saudade


Ela chega em um dia qualquer, em um momento qualquer e te toma de forma inesperada.
Sacode-te e deixa espalhar lembranças como o vento faz com as folhas das copas antes da tempestade. Toma conta dos seus sentidos e vasculha sua memória resgatando cheiros, perfumes, imagens, vozes e sensações há muito tempo esquecidas.
O aroma do café, o perfume de alguém, um rosto conhecido, um lugar, uma gargalhada engraçada, uma expressão facial, uma música que te transporta, uma foto, um abraço, uma voz.
É magnífico o modo como as conexões neuronais se inter-relacionam, de forma a levá-lo a uma sensação já vivida em fração de segundos.
Revive-se dentro deste instante, momentos eternizados na memória.

Incontáveis são os meus momentos e pra cada um deles há uma lágrima derramada, seja ela de tristeza, seja de alegria.
Sinto falta de pessoas, de lugares, de risadas e principalmente de demonstrações de afeto.
Falta de relacionamentos mais sinceros, mais desinteressados e mais humanos.
Falta de conselhos sábios, de uma mão acolhedora, de um olhar compadecido e desesperadamente de uma sociedade menos umbilical.
Também sinto saudade daquele que não conheço, daquele que não sei quando nos encontraremos, mas que há muito tempo...já me faz falta.

Sinto falta da minha melhor parte que se perdeu, aquela que despertava espontaneamente, que não tinha vergonha, que mostrava língua para o medo. Aquela parte que ria de si mesma, que se emocionava com filmes bobos, que era desprendida de olhares acusadores, que se auto-regenerava após a frustração e renascia com mais força.

Mas viver só de saudade também não faz bem, porque ela te consome e vai minando seu desejo por outras novas sensações, aquelas que você ainda não viveu.

Talvez a nostalgia seja mesmo um caminho largo, mas quanto mais largo, mais gente posso levar comigo, e assim, mato um pouquinho a minha saudade.