
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Tesouro

quinta-feira, 15 de julho de 2010
Bobo

Uma mecha desprendeu-se detrás da orelha da moça. O rapaz tímido apressou-se em recolocá-la no lugar, antes mesmo que ela notasse os fios dispersos a enroscar em seus lábios.
Ele já a pesquisara por semanas, sabia interpretar suas feições e era capaz de enxergar a ruga que se formava em sua testa quando a notava preocupada. Ele não era do tipo comum, mas era exatamente isso que a atraia. O mistério, o conteúdo não deixado a mostra na vitrine.
Não gostava de padrões, interessava-se por aquilo que não era óbvio e adorava o jeito acanhado com que a cortejava, ruborizado, sem saber ao certo onde colocar as mãos quando em sua presença.
Era bobo ao convidá-la pra sair, ao entregar-lhe os lírios mais desabrochados num dia qualquer, ao gaguejar quando ficava nervoso, ao achá-la linda mesmo usando uma Hering e um jeans surrado, ao deixar bilhetes com os recados mais doces que já lera, ao dançar todo descompassado e ao tentar demonstrar todo aquele desejo de estar o máximo de tempo possível ao lado dela.
A moça foi incapaz de manter-se indiferente aquela novidade que a capturara. Sentiu-se prestes a encaixar-se na parte de si que andava desgarrada. Não pode conter-se, mesmo que a decisão implicasse em ferir seu instinto auto-protetor, prometido repetidas vezes não ser quebrado.
A forma com que sua cabeça encontrava o ombro do rapaz, seus dedos finos e delicados entrelaçando-se aos dele, sua cintura sendo contornada pelo pouso preciso das mãos do moço e suas idéias e convicções fundindo-se as dele a fez perceber que o encaixe era preciso, tal como peças de quebra- cabeça, únicas, se encaixando com tamanha precisão.
Ela sentiu paz e deu-se conta de que ele não era qualquer rapaz .
Era bobo.
E era dessa bobeira que ela tanto precisava.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Inconformismo não é relativo

quinta-feira, 29 de abril de 2010
Corre

A mochila tornou-se uma casa, onde é possível encontrar tudo o que é necessário para passar um dia morando dentro dela. Agasalho, óculos escuros, protetor solar, ipod, bilhete único e um guarda chuva reforçado é o kit de sobrevivência de qualquer um que se arrisque a viver na metrópole.
São Paulo te encolhe e faz você acelerar o passo, como os atletas fazem naquelas corridas de marcha atlética (engraçadíssima, por sinal).
Não há tempo de olhar para os lados e muito menos parar para dar uma informação, pois são esses preciosos cinco minutos que farão você perder o ônibus para chegar ao trabalho.
Como uma turista que leva uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço e usa um chapéu cor cáqui, logo sou reconhecida pelo paulistano. Quem vive aqui reconhece de cara aquele que não pertence a cidade. Seja pela disposição para conversar, seja pelos costumes interioranos.
Se não fosse provado que a Terra gira em torno do Sol, eu não duvidaria que o paulistano acreditasse que todo o sistema solar girasse em torno de SP. Aquele que não é daqui, ou é caipira ou é estrangeiro.
Ledo engano!
Há vida fora de São Paulo, uma vida simples, mas cheia de significado.
Talvez um refúgio para aqueles que não sabem o que é ouvir o silêncio e enxergar a Lua, invisível a olhos cobertos por poluição.
Embora a capital sugue as suas energias e te transforme em um ser produtivo, criado exclusivamente para o trabalho, ela também estende os seus braços, com uma amplitude ímpar. Te acolhe, te abriga e te ensina a andar no seu ritmo.
Não tropece, porque atrás de você sempre haverá uma multidão com muita pressa.
quinta-feira, 4 de março de 2010
A Saudade

Ela chega em um dia qualquer, em um momento qualquer e te toma de forma inesperada.
Sacode-te e deixa espalhar lembranças como o vento faz com as folhas das copas antes da tempestade. Toma conta dos seus sentidos e vasculha sua memória resgatando cheiros, perfumes, imagens, vozes e sensações há muito tempo esquecidas.
O aroma do café, o perfume de alguém, um rosto conhecido, um lugar, uma gargalhada engraçada, uma expressão facial, uma música que te transporta, uma foto, um abraço, uma voz.
É magnífico o modo como as conexões neuronais se inter-relacionam, de forma a levá-lo a uma sensação já vivida em fração de segundos.
Revive-se dentro deste instante, momentos eternizados na memória.
Incontáveis são os meus momentos e pra cada um deles há uma lágrima derramada, seja ela de tristeza, seja de alegria.
Sinto falta de pessoas, de lugares, de risadas e principalmente de demonstrações de afeto.
Falta de relacionamentos mais sinceros, mais desinteressados e mais humanos.
Falta de conselhos sábios, de uma mão acolhedora, de um olhar compadecido e desesperadamente de uma sociedade menos umbilical.
Também sinto saudade daquele que não conheço, daquele que não sei quando nos encontraremos, mas que há muito tempo...já me faz falta.
Sinto falta da minha melhor parte que se perdeu, aquela que despertava espontaneamente, que não tinha vergonha, que mostrava língua para o medo. Aquela parte que ria de si mesma, que se emocionava com filmes bobos, que era desprendida de olhares acusadores, que se auto-regenerava após a frustração e renascia com mais força.
Mas viver só de saudade também não faz bem, porque ela te consome e vai minando seu desejo por outras novas sensações, aquelas que você ainda não viveu.
Talvez a nostalgia seja mesmo um caminho largo, mas quanto mais largo, mais gente posso levar comigo, e assim, mato um pouquinho a minha saudade.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Ano Novo?
Tal qual uma criança recém-nascida, 2010 também precisa de um nome e sobrenome. E se fosse exigido certidão de nascimento, registraria como Ano Inicial do Desafio.
Começou pipocando de formaturas, com mais de seis mil quilômetros rodados por esse Brasil e uma carga enorme de ansiedade. Pra você talvez seja apenas um ano a mais no calendário, sem novidades, com o mesmo emprego, mesma forma de organizar os armários, mesma disposição dos móveis da sala, mesmo penteado e com as mesmas promessas de todo início de ano que se perdem depois dos últimos fogos de artifício...mas para mim ele será um furacão.
Faculdade concluída, formatura chegando e uma responsabilidade intrínseca de começar a viver da forma mais digna que existe: comendo do próprio trabalho.
Não vou fantasiar aqui que 2010 será o meu ano, ou o ano da minha vida, nem nada disso, porque a mudança acontece a partir de uma decisão, independente se o ano começou ou se está pela metade. Mas a idéia de dividir o tempo em anos é, de uma certa forma, bem inteligente. Traz um poder de renovação, que na verdade não existe, mas é bom acreditar que ela pode acontecer.
A palavra furacão traz ligado a si uma idéia de destruição, e é bem isso.
Ele passa voando e é impossível não perceber que esteve ali. Mas depois da destruição sempre vem a reconstrução.
2010 será assim. Passará voando e será inadmissível não haver mudanças.
E se elas não existirem, é porque não houve vontade de reconstruir-se.
Corra. Ainda lhe restam 7.800 horas...
E já que esse ano será o ano da sustentabilidade, enfie num saco plástico biodegradável o lixo de 2009 e recicle o que puder em 2010.